10 anos

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[G1 Zeca Camargo] Das parcerias inusitadas


Recebi esta semana um convite difícil de recusar: ver Maria Bethânia cantando Chico Buarque, Lulu Santos cantando Roberto e Erasmo, Sandy cantando Michael Jackson. Como diriam os entusiastas do Rock in Rio, eu vou! Na prática, claro, eu vou… se conseguir, porque algumas apresentações, que acontecem a partir do mês que vem (por enquanto, em cinco cidades brasileiras), caem num fim de semana – o período que é sempre um pouco complicado para mim, por conta do meu trabalho. Mas vamos ver se dá, pois a ideia é tão boa que eu vou fazer o possível para me deslocar e ver pelo menos um show desses em cada lugar (os detalhes de cada apresentação estão no final deste texto) – e isso porque eu ainda terei de driblar as duas semanas de férias que vou tirar entre o final de novembro e o início de dezembro (estou precisando tanto delas que não perco uma chance de divagar sobre o assunto, perdoe-me).
(Fotos: AP/Divulgação)
Quem está por trás disso é uma grande agitadora cultural (e, em nome da transparência, devo dizer que também é uma grande amiga pessoal), Monique Gardenberg – alguém que sabe avaliar uma boa mistura, sobretudo musical. Seu nome pode não ser familiar para as novas gerações, mas Monique (durante muito tempo junto com sua dinâmica irmã Sylvinha, que morreu em 1998) foi a primeira pessoa que trouxe para o Brasil o conceito de um evento diferenciado de música. A rigor, o primeiro Rock in Rio chegou antes dela, em janeiro de 1985, mas logo no final do mesmo ano, Monique (ainda com Sylvinha) colocavam de pé o Free Jazz Festival. Menor e focado num público mais específico, o Free Jazz foi durante décadas um dos eventos culturais mais importantes do Brasil. Para você ter uma ideia, Chet Baker tocou na primeira edição. Depois, além do melhor do jazz (e da música) nacional viriam nomes como Nina Simone, John Zorn, Brandford Marsalis, Chuck Berry, Digable Planets, Herbie Hancock, Björk (sim, Björk!), Elvis Costello, Wayne Shorter, Massive Attack, Diana Krall, Mano Chao, Belle & Sebastian (sim, muito antes daquele show no Circo Voador do Rio…), Kraftwerk, e Aphex Twin! Por falar em mistura…
Os mais jovens talvez se lembrem do Tim Festival, não é? Pois então, essa foi apenas a encarnação mais recente do projeto de Monique – que, lá nos idos dos anos 80, ainda conseguiu apresentar algumas edições de um outro evento, o Carlton Dance Festival, que marcou muito o pequeno Zeca, que começava então na sua carreira de jornalista cultural (mas esse assunto, que me é muito caro, é obviamente para um outro post, quem sabe?). Faço essa recapitulação aqui, apenas para justificar que, se eu esperava uma iniciativa como essa de juntar artistas consagrados cantando repertórios “inesperados”, o mais provável seria mesmo que ela viesse de Monique Gardenberg (para dar mais uma informação, o sempre bom Toni Platão fez a curadoria junto com ela).
Os shows marcam a volta do Circuito Cultural Banco do Brasil – e, pelo menos por enquanto, sabe-se muito pouco sobre o próprio repertório em si. Imagino que todas as músicas de cada apresentação ainda não estão definidas. Uma ou outra a gente pode até imaginar… A própria Bethânia fez de “Olhos nos olhos”, de Chico, um clássico. Eu mesmo já vi Lulu Santos cantando (e bem) “Se você pensa”. E Sandy… bom, já viu ela cantando “Ben”? Mas o que mais a gente pode esperar?
Isso, claro, é com os artistas convidados para o projeto – que espero que continue. Aliás, gosto tanto da ideia que queria hoje propor aqui para você um daqueles exercícios de imaginação – e, se a própria Monique passar os olhos por aqui, quem sabe ele não vira uma fonte de inspiração. Diga-me lá: que artista brasileiro (ou banda brasileira) você gostaria de ver desfilando um repertório de um outro artista? Eu tenho cá alguns palpites…
Não seria legal ver Zeca Pagodinho cantando Raul Seixas? Já pensou o que ele poderia fazer com “Ouro de tolo”? Não fique achando que eu estou exagerando… O que é legal desses encontros é justamente a possibilidade, sempre presente, de eles virarem “desencontros”. Mas como isso nunca vai acontecer, justamente pelo talento das partes envolvidas, as chances de termos uma apresentação única e sensacional são enormes! Já que é para enlouquecer, vamos às alturas! Quero ver Dinho Ouro Preto cantando só Led Zepellin. Karina Bhur cantando Clara Nunes. Emicida cantando Caetano. Marisa Monte cantando Bob Dylan. Luan Santana cantando Legião – vai encarar? Maria Rita debruçando-se sobre o repertório de Britney Spears – já pensou? Diogo Nogueira cantando Tim Maia. Céu cantando Lamartine, que sonho… Pitty cantando João Bosco! E, talvez mais do que tudo, Ivete Sangalo cantando Assis Valente – nem posso imaginar o que ela faria com “Uva de caminhão”…
E você? Qual seu palpite para um encontro realmente inusitado?
(Essas apresentações do Circuito Cultural Banco do Brasil vão passar, por enquanto, por Curitiba, São Paulo, Ribeirão Preto, Goiânia, e Recife, a partir de 18 de novembro. A ordem das performances nem sempre é a mesma, então vale a pena conferir essa sequência, bem como as datas precisas e locais dos shows aqui)
O refrão nosso de cada dia
“Uva de caminhão”, Wanderléa – para os que estranharam o nome de Assis Valente na minha sugestão de repertório inusitado para Ivete, que fiz logo acima, aqui vai uma introdução deste que é um dos meus compositores favoritos de todo nosso cânone da MPB. Um dia, quem sabe, não acho um gancho para fazer um post só sobre ele… Mas, por enquanto, fique com essa versão impagável de “Uva de caminhão”, com ninguém menos que… Wanderléa. Afinal, que graça tem as coisas que são previsíveis?

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