10 anos

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[O Globo] Sandy, A Esclarecida De Campinas

Sandy

RIO – A cantora Sandy, uma das brasileiras escolhidas a dedo para representar nossa beleza feminina na série do mesmo nome (“As brasileiras”), será Gabriela, “A reacionária do Pantanal”.Gabriela é tudo o que a cantora parece ser, sem ser: uma menina careta e alienada politicamente. Sandy já protagonizou um debate sobre sexo anal, por causa de uma entrevista à revista “Playboy”, é defensora da união entre iguais e, na política… Bem, na política, surpreende, ao dizer, com outras palavras, que a presidente Dilma não é lá toda essa maravilha que hoje encanta até Fernando Henrique, nome citado pela cantora como responsável pelo pouco de bom que ainda acontece no governo.

Por tudo isso, Sandy, na vida real, exerce o papel de “A esclarecida de Campinas”, cidade em que nasceu e mora até hoje.
Eis os principais tópicos da entrevista:

ENTREVISTA À “PLAYBOY”: “Se eu pudesse escolher, gostaria que nunca tivesse gerado aquela polêmica. Não fui eu que gerei. Foi uma resposta distorcida, tirada do contexto e colocada na capa da revista. Mas, de uma forma ou de outra, acabou contribuindo, sim, para as pessoas me enxergarem como mulher e perceberem que eu cresci um pouco. Pelo menos teve isso de positivo.”

NECESSIDADE DE SER MULHER: “Não, nunca tive necessidade de me mostrar mulher. Essa é uma coisa que foi criada pela mídia. Eu gostaria que as pessoas tivessem uma imagem real do que eu sou, não uma idealizada e antiga. Gostaria que elas atualizassem a imagem que têm de mim, mas eu nunca fiz esforço para isso.”

PERSONAGEM DA SÉRIE: “Eu sou o oposto dela! Minha personagem foi divertida de interpretar. Ela é o oposto de mim. Ela é muito preconceituosa e não aceita de jeito nenhum o envolvimento da mãe dela com uma pessoa do mesmo sexo. Eu nunca fui assim. Tenho amigos gays e lido muito bem com a questão da homossexualidade. Por isso foi mais gostoso fazer o papel.”
ABORTO: “Aborto, sob o ponto de vista jurídico, é crime. Eu defendo a descriminalização, principalmente quando a gravidez representar risco para a mulher ou para o bebê.”

RELIGIÃO: “Sou batizada pela igreja católica, mas não sou praticante. Eu me casei na igreja católica e na luterana, que é a do meu marido. Não sou a favor de alguns preceitos da Igreja. Lembra das 95 teses de Martinho Lutero, desmascarando a igreja católica? Eu concordo com tudo aquilo. Sou contra o celibato, por exemplo, e acho muito retrógrado não usar camisinha.”

CONVIVER COM O FRACASSO: “Sim, já pensei muito nisso. No momento em que eu e meu irmão terminamos a carreira (da dupla) e eu fiquei sem saber o que eu ia fazer, passei por um período meio sabático, procurando meu próprio estilo. Eu pensava: ‘Caramba, e se eu não fizer sucesso com esse estilo? Como vai ser?’ Na teoria, eu até consigo aceitar muito bem mas, na prática, como seria?”

PÓS-DUPLA: “Eu não sou mais famosa como era a dupla Sandy e Junior. Com certeza! O meu nome ainda tem impacto, e eu sei que atraio público e vendo revista, mas o meu show era para 70 mil pessoas e, hoje em dia, canto em casas de show, teatros…”

PRECONCEITOS: “Eu sofri muito preconceito na época da dupla. A mídia tem preconceito, a crítica e uma parte do público. Por exemplo, uma parte das pessoas que gostavam de rock achava que não podia gostar de Sandy e Junior: ‘Isso aí é para criança’, ‘Isso aí é careta’. Não era bem assim. Se a pessoa parasse para prestar atenção, com ouvidos nus, mesmo que não curtisse, podia perceber que aquilo tinha qualidade.”

CANTORA: “Como cantora, eu nunca sofri preconceito, tenho reconhecimento há muito tempo. Um divisor de águas foi a participação no especial da Elis Regina, em 1996. Eu tinha 13 anos e cantei ‘Águas de março’. A partir dali, as pessoas passaram a me olhar com outros olhos.”

A CARREIRA DE ATRIZ: “Não posso dizer que me sinto discriminada e nem que as pessoas tenham preconceitos contra mim como atriz, por um único motivo: eu não sou atriz, no sentido de pronta e acabada. Comecei despretensiosamente e ainda faço dessa forma porque não sou uma atriz formada na escola de dramaturgia ou qualquer coisa assim. Nunca fiz aula de teatro. O que fiz foram trabalhos com preparadores de elenco para novelas e para o filme ‘Acquaria’. Então, a gente aprende um pouco aqui e ali e por instinto. Eu atuo instintivamente e acho que entendo bastante de atuação. Já enfrentei um pouco de preconceito da crítica de novela, mas não me importo muito com isso, porque a minha carreira principal não é aquela. Eu estava brincando de ser atriz. Faço um trabalho de atriz eventualmente. Nesses momentos posso ser chamada de atriz, mas não tenho essa formação. Então, é melhor eu não me encaixar muito para não ser comparada com as feras. Não tenho a pretensão de virar a Fernanda Montenegro da noite para o dia.”

HOMOSSEXUALISMO: “Vejo como uma coisa natural. Sou a favor do casamento gay. Acho que todo mundo tem os mesmos direitos e tem que ser feliz. O problema maior hoje é homofobia, crime hediondo, cruel. A gente, às vezes, fica focada nos grandes centros, e esquece que no interior do país, nos redutos atrasados, a homofobia está presente de forma muito mais selvagem, diante da ausência do Estado.”

POLÍTICA: “Eu acho que existe uma certa ilusão em torno disso. Na questão econômica, o Brasil melhorou, mas, por outro lado, a gente vê que tapa um buraco e destapa outro, sabe? Eu acho que as diferenças entre classes sociais tendem a se acentuar. Na verdade, está melhor do que eu esperava, porque eu não botava fé nenhuma na Dilma. Não votei nela e, vou ser sincera, ela está indo melhor do que eu imaginava, mas eu acho que ainda está colhendo os bons frutos do Fernando Henrique, lá atrás. Digo isso não porque eu seja partidária do FHC ou do PSDB. Não é nada disso, mas eu acho que Fernando Henrique fez algumas coisas boas e a Dilma está colhendo os frutos disso. O Lula também colheu no governo dele, e isso dá uma ilusão para o grande público. Está melhor do que eu pensava, mas não está bom. A política econômica vem do Fernando Henrique. Mas se ela hoje não consegue produzir recursos para as duas pontas do programa social, que são a saúde e a educação, é porque não souberam administrar o que herdaram. Vou ser bem sincera: a educação está horrível, tem gente fazendo greve por tudo que é lado, professor recebendo salário indigno, sabe? As pessoas passam quase a vida inteira estudando e depois não são valorizadas. A saúde pública está um caos. Então, não dá para falar que eu estou satisfeita. Ninguém pode falar que está satisfeito com o governo.”


GLOBO – adapt.: SLBR 

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